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Nova exposição da Galeria de Arte La Salle traz as cores de Marcela Lanna para o caminho cultural do centro universitário

Ao invés de espátulas repletas de tons, a caneta nanquim e o carvão. Essas eram as ferramentas de trabalho de Marcela Lanna aos 13 anos. O preto em contraste com o branco do papel tinha um poder atrativo para ela. O mesmo poder que, em 2023, faz o público passar longo tempo diante da explosão de cores de suas telas. São tantas e tão vibrantes que se deter para observar é quase um movimento inerente. Assim como a aproximação e o afastamento. De perto, é possível ver o detalhe de cada camada espessa de tinta, fazendo relevo sobre o quadro. De longe, a cor deixada pela espátula se une a outros pontos de pigmento até formar uma imagem, seja ela um farol ao mar, o nascer das árvores, o deserto do Atacama ou a Fortaleza de Santa Cruz. Com criações que lembram o pontilhismo de Georges-Pierre Seurat (1859-1891), o impressionismo de Claude Monet (1840-1926) e o pós-impressionismo de Van Gogh (1853-1890), Marcela deixa sua própria marca no caminho cultural do Unilasalle-RJ na exposição que abre a programação da Galeria em 2023.


Marcela Lanna ao lado da mãe na inauguração da exposição Impressão-luz

O título da mostra, Impressão-luz, faz alusão ao efeito criado a partir da soma das cores, como explica a curadora e coordenadora da Galeria La Salle, Angelina Accetta: “A luminosidade que brinda a Galeria a partir dessa exposição vem falar tanto do pensamento científico da época do impressionismo quanto de uma apreensão interna, a partir de um estilo muito próprio. Marcela usa o rosa, por exemplo, que não era muito comum entre os impressionistas, mas cria esse mesmo efeito do rastro, da poética do gesto. A base da arte e da ciência é o olhar divergente, que não vê só o óbvio”.

O percurso do olhar começa com a própria artista em movimento. Primeiro, para acessar as imagens que pinta. Marcela reproduz na tela em branco os registros de lugares por onde esteve em caminhadas. Depois, com a cena em mente, traça estratégias: faz algumas demarcações para ter noção do ponto de fuga, da perspectiva, do peso e da diagramação que quer dar. Utiliza técnicas como a regra dos quadrantes para deslocar o olhar do público rumo a determinado ponto. Faz alguns desenhos e, então, começa a formar o que chama de quebra-cabeça ou mosaico, espatulando as cores ora num extremo ora em outro do quadro, nunca sobrepostas, de forma a se unir na diversidade para construir uma mensagem em três dimensões. Ao longo do trabalho, há novos passeios, mas desta vez entre as quatro paredes do apartamento.

“O processo criativo de cada pintura também é uma caminhada. Temos a distância de um braço para pintar o quadro, mas por essa distância você não consegue ter uma percepção total. Então, eu pinto, dou uns três passos, pois o ideal são dois metros de distância, e vejo o que estou produzindo. Depois retorno e volto a apreciar de perto”, explica a artista, “Às vezes, me pego no outro quarto olhando na diagonal exata para ter uma distância de mais metros e ficar namorando a tela. Você deixa a imagem falar com você enquanto ela está sendo formada".


Na primeira imagem, Marcela explica seu processo criativo e é possível ver em detalhe o efeito de suas espatuladas. Abaixo, o mesmo quadro visto de longe: Ilha refletida azul (2020)

No caso da obra Deserto do Atacama, de 2020, uma imagem falou com Marcela antes mesmo que ela cogitasse fazer arte. Diante de seus olhos estava um deserto de sal, uma montanha vulcânica, laranja em tom mais terroso, um céu em pôr do sol e flamingos cor-de-rosa. “Foi um dos poucos lugares da minha vida em que, ao chegar, chorei. Se eu pintasse as cores que vi ninguém acreditaria, pensariam que eu estava abstraindo a imagem. Se eu tirasse uma foto pensariam que empreguei um filtro. Você tenta, mas nunca conseguirá reproduzir o mesmo que viu”, atesta. Eis alguns desafios dos artistas: uma tela em branco; a impossibilidade de transpor exatamente o real e, no fundo, não precisar fazê-lo; saber a hora em que um quadro está pronto. Esse último ponto intriga Robson Francisco Martins. Ele é um dos artistas da cidade de Niterói que participou da inauguração de Impressão-luz (além dele, marcaram presença nomes como Bê Sancho, Wil Catarina e Le Briones), em fevereiro. “Quando é que você sentiu que era a hora de parar? Essa é a pergunta que gostaria de fazer para ela”, compartilhou Martins na ocasião. Em sua opinião, a moradora de Niterói (Marcela se mudou na pandemia) faz jus a uma marca da cidade:

“Niterói tem uma tradição de paisagismo e de marinistas, vem da Escola Fluminense de Belas Artes. Se você vê o Antônio Parreiras, ele também tinha uma influência no impressionismo. Ela segue essa tradição, mas com sua técnica própria. Posso dar um exemplo. Passei longo tempo estudando o quadro Regata em Argenteuil, de Monet, pois fiz uma réplica para presentear o CIEP 449, Escola Intercultural Brasil-França. Respeitei as cores dele, toda a intensidade. Mas aqui vemos a mão da Marcela na releitura Velas ao mar, é muito próprio dela”. O amigo, Bê Sancho, que expôs na Galeria de Arte La Salle em 2022, faz coro a esta fala: “A vibração de cores é a leitura tropical da nossa terra, do nosso lugar. A Marcela se apropria de um patrimônio mundial da arte, da cultura, e coloca essa dimensão cheia de energia, vibrante. Colabora, assim, para que o nosso olhar se amplie diante dessas referências. Você não consegue passar por este corredor sem ser afetado, porque ele vibra, pulsa, cada tela te captura. Nessa caminhada pela Galeria, seu olhar vai sendo jogado em pingue-pongue”.


Na primeira foto, a obra Deserto do Atacama, descrita por Marcela. Logo abaixo, Velas ao mar, uma releitura de Regata em Argenteuil (Monet,1872)

Em contato com o público

Guiar o olhar do espectador através das cores, dos contrastes, da iluminação, das sombras, é justamente o que Marcela Lanna se propõe a fazer, como deixou claro às turmas de graduandos que a acompanharam em uma visita na noite do dia 9. Naquela ocasião, ela também apresentou as suas ferramentas de trabalho, cruciais para criar o que Robson Martins chamou de “mãos da Marcela”. “Eu não uso pincéis, somente espátulas. A tinta acrílica tem um tempo rápido de secagem, mas como eu opto por uma quantidade muito grande de tinta, acabo criando uma textura, a cor em relevo. Isso faz com que seja necessário mais tempo para secar. Requer uma paciência, requer um ritmo; às vezes queremos acelerar, mas a espátula acalma”. Por meio da curadoria de Angelina Accetta, as espátulas, assim como restos de tinta e paletas, são parte integrante da exposição. O público pode apreciar as telas ao longo do caminho cultural, o material de trabalho no centro por todo o trajeto e, ao final, é convidado a duas experiências: de um lado da Galeria, se senta para assistir a um vídeo no qual Marcela conta a dinâmica de seu processo criativo. Do outro, se transforma no artista, criando figuras e palavras em um mural de 2,60m x 1,30m repleto de lantejoulas.

“Sei que dá muita vontade de tocar nas obras por conta do relevo, mas a oleosidade que temos naturalmente nas mãos reage com a tinta e, com o tempo, ela fica amarelada. Por isso, quando a Angelina me convidou a fazer algo interativo, quis trazer essa possibilidade de deixar o visitante ter o seu espaço. Pelo ângulo que você olha para as lantejoulas tem o azul, o verde, o rosa e o roxo. São quatro cores para trabalhar”, esclareceu a artista.