19/12/2018 - 20:34
Dedicação e frutos: Projeto Desabrochar 2018

Na gincana foi necessário apoio mútuo. Antes de alcançar o último estágio da brincadeira, as crianças tiveram que ter agilidade para passar as bexigas cheias d’água ao colega de trás, até completar o balde. Na campanha de arrecadação para as cestas básicas foi necessária colaboração. Quando parecia impossível conseguir toda a quantidade pretendida de itens para o Natal de 56 famílias, a busca se intensificou e alcançou mais mãos estendidas, dispostas a partilhar. No dia a dia da Ação Comunitária é necessário muito trabalho em equipe. E o atual time de Livia Ribeiro leva a sério essa união. Participam e dão juntos ideias para novas empreitadas, o que não impede de surgirem líderes para coordenar as diferentes atividades. No caso da parceira com o Centro Social Vicenta Maria, o Projeto Desabrochar é missão de Ana Flávia Estevam. Missão essa para a qual ela dedicou quase todos os sábados do ano, como coordenadora da oficina de reforço escolar, e para a qual utilizou de muita criatividade no dia 15 de dezembro, durante o encerramento das atividades de 2018.

 

O projeto que atende crianças e adolescentes carentes chamou a atenção de Ana Flávia durante o Seminário de Formação do primeiro semestre, quando ela ainda nem pensava em ser estagiária da Ação Comunitária. A aluna de Relações Internacionais, atualmente no 5º período, já havia trabalhado antes com o voluntariado, cuidando de um público com a mesma faixa etária do Desabrochar na Igreja e na própria família. O que não impediu que desafios surgissem: “Durante a semana eram cerca de 18 crianças, mas aos sábados o número aumentava muito e, às vezes, eu era a única voluntária, o que significava ter mais de 30 crianças à minha volta. Decidi participar também aos sábados por ver voluntários desistindo. Não me importava abrir mão de uma alegria momentânea, de um lazer que eu poderia ter, sendo a contrapartida transformar de alguma forma a vida daquelas crianças. A saudade delas, o fato de quererem sentar do meu lado na hora do almoço, de me conhecerem pelo nome, esses pequenos detalhes foram mudando também a minha vida. Livia viu a minha dedicação por esse projeto e me deixou como responsável. Mergulhei de cabeça”.

O aumento da responsabilidade estimulou em Ana Flávia a luta por um voluntariado mais permanente de outros alunos, já que “a criança fica com você na memória, fica com esperança de te ver no próximo sábado. E se o voluntário não faz isso, a desanima, e ela não tem vontade de vir mais. Acho que ainda não consegui encontrar a maneira certa de fazer os voluntários verem o que eu enxerguei, mas sigo tentando”. A tarefa é árdua. Dos 42 inscritos para participar do Desabrochar no início do semestre, Ana Flávia conta nos dedos os que prosseguiram marcando presença.  

O próprio contato com as crianças não foi sempre fácil. Para quem acompanhou a estudante organizando as dinâmicas da recreação no último sábado, talvez fosse difícil imaginar que há seis meses a maior interação era apenas um desejo. “Na primeira vez que fui jogar futebol com um grupo de meninos, eles não queriam que eu estivesse ali porque eu era uma menina. Hoje eles me chamam para brincar de bola, mesmo eu não sabendo fazer direito. O ponto chave é este contato constante”, relata.

 

 

Ana Flávia e voluntários em ação no dia 15, quando as Irmãs distribuíram os presentes de Natal

Nenhum problema surgido na caminhada, no entanto, faz Ana Flávia perder sua garra. Um exemplo vem da sua perseverança em montar cestas básicas para serem doadas às 56 famílias atendidas pelo projeto. Responsável pela casa, Irmã Sueli conta que ela mesma havia desistido da ideia, já que, a cada fim de semana, fornece alimentos doados aos pais, mas não tem braços suficientes para conseguir se comprometer com um kit de produtos robustos no fim do ano para cada um. Ana Flávia abraçou o desafio e no próximo sábado, dia 22, todos os pais que vierem ao Centro Social Vicenta Maria receberão suas cestas com arroz, feijão, açúcar, óleo de soja, sal, farinha de trigo e de mandioca, macarrão, fubá, molho de tomate, milho, ervilha, sardinha, biscoitos, sacos de leite em pó, panetones, sabonetes, pastas e escovas de dente. Um presente e tanto, para além dos brinquedos que as próprias Irmãs conseguiram arrecadar e distribuíram na grande festa do dia 15, com direito a cachorro quente, sorvete e muita diversão.   

 

Vidas mudadas pelo Desabrochar

Não à toa, toda a dedicação fez Ana Flávia ser chamada pelas Irmãs gêmeas Glória e Esperança para tomar à frente do público e receber aplausos no último sábado. Outro a receber igual homenagem foi Davi Lopes, em breve pianista formado pelo Conservatório de Música de Niterói. Depois de ser aluno na Casa das Irmãs, o jovem de 19 anos regressa ao espaço para dar aulas da paixão que descobriu ali. “Eu vim para fazer aula de Informática em 2014, mas fui apresentado à professora de piano e logo me interessei. A primeira vez que eu toquei em uma tecla na minha vida foi algo estranho, eu não sabia nada de música. Mas fui querendo conhecer cada vez mais”, lembra Davi, “Além das aulas com a Andréa, a Irmã Maria das Graças me orientava, sentava comigo e me corrigia. Foram dois anos assim. Até que a Dona Bárbara, voluntária que conheci aqui, se ofereceu para pagar meus estudos de piano, que estou concluindo agora. Esse projeto mudou a minha vida e agora quero servir a ele, retribuir tudo o que recebi aqui. Eu faço o que outras pessoas acreditaram e fizeram comigo”.

As irmãs Glória e Esperança ao lado de Davi, em oração

O sonho de Davi foi realizado e descoberto a partir do trabalho desenvolvido no Centro Social Vicenta Maria. Para os de outras crianças brotarem, o sonho de voluntários como Ana Flávia é crucial.  O que, por sua vez, demanda trabalho em equipe. Afinal, como diz a frase de “Imagine” (John Lennon), que Livia Ribeiro traz tatuada: “I’m a dreamer, but I’m not the only one” (Sou um sonhador, mas não sou o único).

Por Luiza Gould (texto e fotos)

Ascom Unilasalle-RJ

 



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